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Às vésperas de Cannes, vencedores brasileiros do Young Lions falam sobre seus cases e o futuro da publicidade

Representar o Brasil no maior festival de criatividade do mundo poderia ser motivo para aumentar a pressão. As duas duplas vencedoras do Young Lions Brazil 2026, no entanto, seguiram o caminho contrário. Apostaram em processos leves, ideias simples e colaboração para criar os trabalhos que as levarão a Cannes, onde o País tentará ampliar sua liderança histórica na competição.

![Image 1: Young Lions: Guilherme Caneschi e Isa Ramos, da Gut Design; Jota Campos, Africa, e Vinicius Montes, da David](https://www.meioemensagem.com.br/wp-content/uploads/2026/06/1280x852-young-lions-isa-ramos-e-guilherme-caneschi-gut-jota-campos-vinicius-montes-africa-cred-divulgacao02-616x410.jpg)

Brasil será representado no Young Lions Brasil por Guilherme Caneschi e Isa Ramos, da Gut Design; e Jota Campos, da David, e Vinicius Montes, da Africa (Crédito: Divulgação)

Entre o whisky que vira símbolo de consumo equilibrado e um espaço desenhado para transformar fãs em criadores de conteúdo, os cases vencedores ajudam a traduzir algumas das discussões que atravessam a publicidade atual, como comunidades, creator economy, experiências e o papel da criatividade em meio à revolução tecnológica.

Promovido pelo Cannes Lions, o concurso global chegou à 31ª edição neste ano e a etapa brasileira, organizada pelo Estadão, contou com duas categorias: Design e Digital. Na primeira, a dupla Isa Ramos e Guilherme Caneshi, da Gut Design, venceu o desafio, patrocinado pela TIM, com a campanha “Reactor by TimHouse”, que transforma a conectividade da operadora em uma experiência de criação em tempo real nos festivais, permitindo que fãs produzam e publiquem conteúdo.

Já em Digital, o trabalho vencedor foi “The White Stripe”, criado para Diageo, patrocinadora da categoria, por Vinicius Montes, da Africa Creative, e Jota Campos, da David (à época, ele também estava na Africa). A proposta adapta a Johnnie Walker à trend “zebra striping” de alternar álcool e não álcool, criando o “White Label” (água) para intercalar com o whisky e aproximar a marca ao consumo da geração Z.

## **Processo criativo**

A dupla encarou a competição de forma tranquila, um dos fatores necessários para encontrar e executar a ideia. “O Brasil é um dos países mais criativos e talentosos do mundo, então, colocar ainda mais pressão sobre nós mesmos não ajudaria no resultado”, diz Montes. “Apostamos toda a nossa energia em uma ideia simples, potente e divertida, que respondia perfeitamente ao briefing”, completa Campos.

Isa Ramos conta que, apesar de estar na mesma agência, a dupla só havia trabalhado junta uma vez, em outro projeto com mais tempo de desenvolvimento. Por isso, o prazo menor entre o briefing e a submissão no Young Lions, de menos de uma semana, foi um desafio para os dois, principalmente por conta do fluxo intenso da rotina de trabalho.

“Acho que o que fez a diferença foi termos decidido sentar juntos presencialmente e resolver tudo em tempo real. Em vez de dividir etapas e trabalhar separados, fomos construindo a ideia lado a lado, um complementando o raciocínio do outro”, diz Isa.

Nesse processo, os dois descobriram uma boa dinâmica de parceria, complementa Caneschi. Quando um começava a se preocupar com o tempo ou com a jornada criativa, o outro levava calma e confiança. “No fim, percebemos que nossas energias e talentos são bastante complementares. Foi intenso, mas conseguimos construir juntos de uma forma muito natural, especialmente sob pressão”, afirma.

## **Altas expectativas**

A premiação global do Young Lions é dividida em medalhas de Ouro, Prata e Bronze. No ano passado, consagrou 42 profissionais. Considerando os 30 anos de história do concurso, o Brasil é o atual líder mundial do ranking, com 20 medalhas, à frente da Austrália (19), Canadá (18), além de Portugal, Alemanha e Reino Unido, com 17 cada um.

Conforme o Estadão, representante do Cannes Lions no Brasil, [a etapa nacional](https://www.meioemensagem.com.br/cannes/young-lions-brazil-abre-inscricoes-para-edicao-2026) registrou 533 duplas inscritas e 401 campanhas submetidas. A avaliação ficou nas mãos de um júri de 68 profissionais de destaque no mercado de comunicação. Na Riviera Francesa, de 22 a 26 deste mês, os brasileiros concorrerão com cerca de 227 duplas de 67 países.

Apesar de alta, a concorrência não assusta, afirma Isa. Na verdade, se torna “100% inspiração”, por saber que a dupla representará um país com uma cultura tão forte de criatividade. “É gratificante estar junto de ‘uma galera’ tão inspiradora que já esteve no mesmo lugar que estamos”.

O orgulho e a responsabilidade por representar o Brasil também são certezas que não impõem pressão para Montes e Campos. “Na etapa nacional, a leveza e a tranquilidade foram fundamentais para o nosso processo criativo. Queremos repetir essa receita em Cannes para conquistar o melhor resultado possível e, por que não, sonhar com o Ouro”, acrescenta Campos.

## **Perguntas dos jovens leões**

Além das campanhas, as duas duplas brasileiros levarão na mala uma série de perguntas sobre os rumos da publicidade. Diante de um momento de transformação acelerada, em que novas tecnologias e formatos surgem a todo instante, Montes e Campos querem refletir e descobrir como comprovar para os clientes que a criatividade continua sendo o melhor custo-benefício para os negócios e, principalmente, como construir confiança no início de uma relação com uma marca.

Para Isa e Caneschi, apesar da inteligência artificial ser uma grande pauta, a pergunta que mais os interessa é como a publicidade pretende responder, na prática, aos grandes desafios da atualidade, como a crescente instabilidade política, conflitos globais e crise climática cada vez mais evidente.

“Temos curiosidade em saber o que os líderes da indústria acreditam que realmente vai mudar na forma como trabalhamos diante desse cenário. A publicidade tem um enorme poder de influência cultural, mas muitas vezes nos perguntamos até onde esse impacto vai além dos discursos e dos videocases”, explica Caneschi.

## **5 tendências na opinião da nova geração**

Os jovens criativos preveem um futuro marcado pela capacidade de misturar novas ferramentas com bom gosto, relevância e propósito, sendo primordial de entender como a autenticidade conseguirá sobreviver nesse cenário tão tecnológico, em que a produção de conteúdo se torna ainda mais veloz e com risco de pasteurização.

Eles citam cinco tendências que devem ganhar relevância:

### 1 – Valorização do design e do craft

Quanto mais a tecnologia democratiza a produção, mais valiosos se tornam os elementos que carregam intenção, autoria e sensibilidade humana. O design e o craft deixam de ser apenas execução e passam a ser uma forma de diferenciação e construção de autenticidade.

### 2 – Entretenimento como conexão

Usar o entretenimento como forma de criar conexão com as pessoas continuará sendo uma estratégia poderosa e isso não significa que a publicidade precise se disfarçar de outra coisa. Peças publicitárias que entretêm ainda fazem 30 segundos parecerem muito mais curtos do que um botão de “skip ad” de 5 segundos.

### 3 – Formatos diversos

Cada vez mais vemos ideias que desafiam definições tradicionais, como exposições, instalações, experiências ou peças publicitárias. Muitas vezes, não importa a roupagem. A relevância da entrega parece estar se tornando mais importante do que o formato em si, tanto para gerar impacto para as marcas quanto para atrair talentos para a indústria.

### 4 – Novas formas de trabalhar e criar

Uma das grandes tendências será a “desromantização” do burnout. A criatividade sempre foi tratada como algo que exige sacrifício constante, mas as novas gerações parecem mais interessadas em encontrar formas de criar melhor, e não apenas trabalhar mais.

### 5 – Descentralização da comunicação

Hoje, qualquer pessoa com uma câmera no quarto pode se tornar a voz de uma marca. Isso muda a dinâmica da comunicação e exige que as marcas estejam mais abertas a múltiplas vozes, interpretações e comunidades.
